
Foto de Marcelo Lélis
Certa vez, o escritor francês Georges Duhamel afirmou que "nós não conhecemos o verdadeiro valor de nossos momentos até que eles se submetam ao teste da memória". Em "Aldeotas", peça de Gero Camilo, em cartaz no Espaço Cuíra, com montagem do Grupo Gruta e direção de Henrique da Paz, um homem faz este teste ao voltar a sua cidade natal para reencontrar um grande amigo de infância. E esse retorno físico acaba o conduzindo também a uma viagem onírica por suas próprias recordações. A cada passo que dá na antiga casa paterna, cheiros, sabores e fotografias vão tirando estes fragmentos de memória da escuridão do esquecimento.
Tudo isso vai sendo contado por meio de um dos textos mais inteligentes, bem-humorados e poéticos dos últimos anos no teatro brasileiro. Escrito pelo consagrado ator Gero Camilo, o espetáculo conta a história dos amigos Levi (Adriano Barroso) e Elias (Ailson Braga) e suas aventuras e desventuras na cidadezinha fictícia de Coti das Fuças. Uma aldeota perdida no tempo e no espaço, como tantas outras pelo interior do Brasil. Um lugar onde as casas e ruas parecem tão imutáveis quanto as vidas daqueles que não ousam abandoná-la.
"Aldeotas" é, sem sombra de dúvida, o tipo de peça que todo espectador iniciante de teatro deveria assistir. Uma comédia sem escracho, despojada de cenário e trilha sonora, que concentra toda sua força narrativa em um texto de ritmo contagiante (brilhantemente adaptado para o linguajar paraense) e nas interpretações cativantes dos dois atores em cena. Atuações estas baseadas em uma performance física de tirar o fôlego - literalmente - e valorizadas por uma iluminação impecável.
Esse minimalismo torna-se curioso numa peça que parece desafiar o espectador a sair da zona de conforto proporcionada por esta época tão tecnológica, na qual o cinema, a televisão e o próprio teatro têm deixado muito pouca margem de manobra para a imaginação do público. Pode-se dizer, portanto, que estamos diante de uma experiência quase que literária, uma vez que a plateia precisa ser cúmplice do que está sendo encenado no palco para embarcar nesta viagem cheia de escalas pelas recordações da infância de Levi. Uma viagem que, por fim, também acaba despertando as nossas próprias lembranças.
Em termos de enredo, "Aldeotas", na verdade, não traz grandes novidades. A peça é mais bem sucedida na construção de um estado de espírito que irá envolver o espectador de forma crescente até o comovente desfecho da sua trama. Os acontecimentos que pontuam o roteiro (ganhador do prêmio Shell, em 2004), são apresentados em formato de esquetes. Cada sequência nos leva a um momento específico do passado que revela pouco a pouco a bela amizade entre Levi e Elias.
Na história, os dois amigos crescem juntos e montam um jornal de colégio na pequena cidade de Coti das Fuças, no qual Levi é o poeta e Elias, o editor-chefe e crítico literário. Com o passar do tempo, Levi e Elias vão descobrindo a própria sexualidade e as reações do mundo à sua volta com relação à amizade que alimentam. É a partir daí, que as diferenças entre o que cada um espera da vida acabam por ameaçar aquela cumplicidade que foi sendo mostrada por meio de situações emblemáticas, algumas delas cômicas e outras de forte peso dramático. Todas, porém, comoventes.
Por tudo isso, "Aldeotas" é um espetáculo imperdível, que diverte, comove e provoca a imaginação. Uma pena que só ficará em cartaz até o próximo domingo. Merecia uma temporada bem mais longa em Belém. Mas fica aqui a dica.
Serviço
A peça "Aldeotas", de Gero Camilo, entra em sua última semana em cartaz no Espaço Cuíra, que fica na esquina das travessas Riachuelo com 1º de Março, próximo da praça da República. Montagem do Grupo Gruta, com direção de Henrique da Paz. Quinta, sexta e sábado, às 21 horas. Domingo, às 20 horas. Entradas: R$ 20 (meia/estudante a R$ 10).
(CRÍTICA PUBLICADA HOJE EM O LIBERAL, CADERNO MAGAZINE, PÁGINA 3)


